Trinta anos sem Cazuza

Trinta anos sem Cazuza

“Eram seis horas da manhã do dia 7 de julho de 1990 quando a enfermeira Edinha, que cuidava de Cazuza em casa, num quarto adaptado a uma UTI, iria fazer uma nebulização, mas ele não se mexeu nem abriu os olhos, sua respiração estava pesada. Atordoada chamou João, que me acordou. Às seis e meia ligou para o doutor Paulo Lopes. Logo que chegou deram uma injeção, mas estavam agitados. Entrei no quarto e não acreditava no que estava vendo, não me lembro da hora da morte do meu filho, estava paralisada, hipnotizada. Alguém me perguntou se queria me despedir do meu filho, entrei no quarto correndo, o abracei e pedi perdão por tudo o que fiz de errado, por toda a incompreensão, pela impaciência, por amar demais, em voz alta, como se fosse me ouvir melhor. Senti a sensação naquele abraço como se estivesse querendo levá-lo novamente ao útero, que voltasse pra dentro de mim.”

O livro é uma entrevista com a mãe de Cazuza à jornalista Regina Echeverria, na qual conta um pouco da sua história, como conheceu o marido, João Araújo, e a vida intensa que seu filho viveu, desde o nascimento até a morte. Um livro de lembranças de uma mãe que fez de tudo pelo único filho, como ela mesma diz. “Queria que ele fosse o melhor em tudo: o mais inteligente, o mais bem vestido, o mais estudioso e comportado.” “Teve carinho demasiado e controle demasiado.” Uma superproteção que teve momentos conturbados por isso.

Cazuza era aquele moço irreverente que falava o que pensava, fazia o que queria e viveu tudo o quis, sem censura. Tinha um gênio difícil, ao mesmo tempo em que era explosivo era sensível e carinhoso, muito brincalhão. Cazuza foi uma criança tímida, mas levada, e um adolescente rebelde. Estudou nos melhores colégios do Rio de Janeiro, mas não era um bom aluno, escondia da mãe as notas baixas, até rasgava os boletins. Chegou a entrar na faculdade, mas desistiu, não era o que queria.

Em 1981, o cantor Léo Jaime teve ideia de apresentar Cazuza para a banda do Barão Vermelho. Léo Jaime tinha sido convidado, mas não quis. Cazuza falou que essa não era a dele e nem conhecia os meninos; embora tenha sido criado em uma família musical, sua mãe cantava e seu pai era presidente da Som Livre, por isso sua casa recebia muitos artistas.  A empatia com o grupo foi imediata, tornou-se o melhor amigo e parceiro de Frejat, uma parceria que durou até 85, quando Cazuza decidiu fazer carreira solo. 

Descobriu a Aids em abril de 1987, no início de sua carreira solo. O disco ‘Ideologia’ foi gravado em 88, já na fase de sua doença. A crítica o consagrou como seu melhor trabalho. Também fez parte desse disco ‘Brasil’, estava no seu melhor momento da carreira.  Na turnê de ‘Ideologia’, em Belém, suportou um mal-estar até o final do show, depois do último verso de “o tempo não para” caiu desmaiado no palco. Em agosto de 89 foi lançado o álbum duplo ‘Burguesia’, que havia sido gravado no começo do ano. Em outubro do mesmo ano foi para sua última internação em Boston, nos Estados Unidos, onde passou cinco meses. Sua última Ceia de Natal foi no hospital.

Em março de 1990 voltou ao Brasil e foi montado um quarto de UTI para cuidar da sua saúde em casa. Nesses últimos meses ainda passou 15 dias na casa de Petrópolis que Cazuza gostava muito. Em maio foram para a casa em Angra dos Reis, fez alguns passeios de barco, sempre carregado por três seguranças.

Um mês antes de morrer fez um passeio de Veraneio com os amigos e as enfermeiras que cuidavam dele, foi a última vez. Cazuza disse que queria ir no show de Renato Russo no dia 7 de julho. Não foi possível, Renato Russo fez o show em homenagem a ele.

“Mãe, aconteça o que acontecer, eu vou estar sempre junto de você”

                                              Cazuza

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *