Artigo do livro do Chorão

Artigo do livro do Chorão

Um rapaz bonito que chamava a atenção por onde passava, usava um skate nos pés e um jeito marrento de ser, mas só quem o conhecia sabia que aquilo era só um escape para o rapaz mais tímido e amoroso que existia atrás daquela aparência. Um poeta, um homem apaixonado, que de tanto amar preferiu sair de cena antes para não deixar o seu amor ficar infeliz ao seu lado. Um ato de amor.

Conheceram-se em 1994. A primeira troca de olhares foi no calçadão de Santos, daí por diante o ‘acaso’ não parou mais, até que se encontraram numa balada da cidade. Sem saber que era ele, Graziela avistou de longe um rapaz com uma mecha de cabelo vermelho fluorescente. Decidida, foi até ele para falar exatamente sobre esse detalhe; quando ele se virou, viu que era o Chorão. Logo depois disso passaram a se encontrar, até que começou o namoro, da forma mais tradicional, o pedido oficial. Daí surgiu a música ‘Proibida pra mim’. A banda explodiu em 1996, com uma demo entregue a Tadeu Patola que chegou às mãos de Rick Bonadio, e assim o Brasil conheceu ‘Charlie Brown Jr’.

O amor desse casal foi algo difícil de imaginar que possa existir, com cumplicidade, respeito, parceria e muito amor envolvido. Conheceram-se quando ele ainda não era nada, passaram dificuldades juntos, caíram várias vezes, mas nunca desistiram nem do amor nem do sonho. Ele tinha um propósito na vida, dar uma casa para a família. Conseguiu muito mais do que isso, conquistou o que nunca imaginou que fosse capaz de conseguir, ao lado daquela que esteve junto em todos os momentos, e isso pode ter sido o pilar que sustentou sua vida por mais tempo.

A banda ‘Charlie Brown Jr’ passou por duas fases difíceis; a primeira foi desmontada pela saída de todos os integrantes, o que deixou Chorão arrasado. Na segunda, não só teve problema com a saída de Pinguim, também como um processo que tirou a paz de Chorão, mas também com os inúmeros compromissos burocráticos e shows, que só cresciam.

Não havia nada errado com a banda na época de sua morte, mas havia muita coisa errada com Chorão. Não conseguia se livrar das drogas, não se sentia mais feliz com aquilo tudo; procurava algo para fazer sentido em sua vida. Como forma de não levar seu grande amor para baixo com ele, saiu de casa alguns meses antes da sua morte. Dizia que ia voltar, mas o seu estado não permitia que voltasse. Foram inúmeras as vezes em que Graziela tentou tirá-lo daquela situação. Ele até concordou com um primeiro tratamento para se livrar da dependência química, mas não prosseguiu.

Foi então que, em 6 de março de 2013, o Brasil perdeu mais um ídolo do rock nacional, mais um poeta, mais uma banda que poderia estar aí com suas letras sensíveis, algumas nem tanto, mas feitas através do coração que batia naquele peito que transbordava amor.

Não encontrei uma pessoa rude e pesada nas páginas desse livro. Conheci um Chorão que não se via nos palcos, aquele jeito despojado de ser parecia ser a sua melhor versão, mas não era, a sua melhor versão era o Alexandre, o homem, o marido, a pessoa atrás dos bastidores, e esse quase ninguém conheceu.

Tem uma fala de Graziela no final do livro que diz: “Atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher”, mas para ela “esse ditado nos deixa, como mulheres, numa posição coadjuvante. Não há um real reconhecimento de que a “grande mulher” também trabalhou, lutou e sofreu, não participou apenas da colheita e das alegrias”.

 Eu digo: Ao ‘lado’ de um grande homem existe uma grande mulher.

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