Vida e obra de Renato Russo

Vida e obra de Renato Russo

Renato Manfredini Junior nasceu no Rio de Janeiro em 27 de março de 1960. Pai bancário, com cargo de destaque no Banco do Brasil como assessor da presidência, e a mãe, professora de inglês. Primogênito da família, teve uma irmã, Carmem Tereza, que também ganhou o primeiro nome da mãe.

Em 1967 a família foi para Nova York, onde passou dois anos. Voltaram para o Brasil, mas o desejo da mãe de Renato era morar em Brasília. Em 1973 houve a tão sonhada transferência do Banco do Brasil para Brasília.

Renato sempre foi ótimo aluno, uma inteligência acima da média, escrevia muito bem e gostava de ler. A música fez parte da sua vida desde muito pequeno, pois junto com o pai ouvia música clássica ou norte-americana. Desde que voltou de Nova York foi estudar inglês para não perder a fluência do idioma, já que a família fazia questão que continuasse o contato com a língua.

 Seu acesso à cultura foi influenciado pelo pai, que desde muito cedo o levava a concertos de música erudita no Teatro Nacional e apresentações de orquestras internacionais. Enciclopédias, livros de referência e clássicos da literatura universal faziam parte da sua rotina. Garantia ao filho acesso ao conhecimento, à cultura.

Renato passou sua juventude em Brasília, onde fez muitos amigos, que na maioria gostava de música como ele. Tinha uma personalidade marcante, era exigente com o que queria e como queria, não deixava de falar quando não gostava de uma situação. Era difícil lidar com ele, irônico e ácido, um jovem de muitas teorias, desta forma não agradava a muitos com quem convivia.

Aos quinze anos, teve diagnóstico de epifisiólise (desgaste da cartilagem que prejudica o fêmur). Foi operado às pressas e colocou três pinos, e enfrentou uma recuperação muito sofrida. Nesta fase, como não podia fazer nada, nem mesmo sair da cama, passou a escrever e ler muito. Esta situação levou o jovem a realizar o sonho de ter uma banda de rock imaginária – a 42nd Street Band, com músicos fictícios, inclusive se autointitulou como Eric Russo; inspirado em três admiradores, os filósofos Jean-Jaques Rousseau, Berttrand Russel e também no cineasta Ken Russel. Mais tarde adotaria o sobrenome Russo oficialmente em sua carreira. Compôs músicas, escreveu uma trajetória inteira da banda, que mais tarde serviria para lançar a Legião Urbana.

Apesar de toda a formação cultural que recebeu de seu pai, aos 17 anos, lendo uma matéria no jornal Correio Brasiliense sobre uma banda punk, a Pistols, que viria ao Brasil, Renato mudou totalmente sua aparência. Da camisa social passa a usar calça rasgada, camiseta branca, acessórios e bota coturno, tornando-se um punk, para desespero de sua mãe. A partir daí resolve montar uma banda, ficou conhecendo Fê Lemos e junto com o amigo André Pretorius nasceu o Aborto Elétrico.

Entrou na faculdade de jornalismo, trabalhou no jornal da feira – produzido pelo Ministério da Agricultura –, trabalhou em rádio apresentando um programa sobre os Beatles, foi professor de inglês na Cultura Inglesa, onde estudou. Posteriormente foi à Itália aprender a língua, quando gravou seu álbum solo em italiano.

Depois de desentendimentos constantes com Fê Lemos, Renato resolveu acabar com a banda e foi tocar sozinho, como o “Trovador Solitário”. Insatisfeito, começa a escrever a versão em inglês e francês da próxima banda. Convida os amigos Dado Vila Lobos, Marcelo Bonfá e Paraná para formar a banda, e assim nasce, em 1982, A Legião Urbana.

Herbert Viana foi quem apresentou uma demo da banda para a gravadora EMI do Rio de Janeiro. Não eram de contratar bandas de Rock, apostaram na Legião. Todos os integrantes mudaram de Brasília. Muitos contratempos aconteceram até o lançamento do primeiro álbum, em janeiro 1985, com as músicas Geração Coca-Cola, Ainda é Cedo e Será, entre outras. O álbum foi lançado justamente com o início do Rock in Rio, vendeu pouco mais de 1.200 cópias. Mas quando a música “Será” começou a ser tocada nas rádios, ultrapassou as cinco mil cópias vendidas. A gravadora comemorou.

Em 1988 foi marcado um grande show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, mas por falha na organização houve atraso no início, tumulto e muita confusão durante o show. Renato Russo era uma pessoa que não gostava da violência, da injustiça. Sempre se posicionava quando ocorria alguma confusão, e não foi diferente neste dia. Quando viu a polícia bater em alguns jovens, parou o show e mandou que parassem. Visivelmente irritado, continuou o show. Mas uma brincadeira que fez, desagradou uma pessoa na plateia e levou Renato Russo a passar por momentos tensos. Levou uma gravata e não conseguia se livrar do agressor, até que os seguranças subiram ao palco e conseguiriam retirar o rapaz.

A plateia gritava e queria música, então ele retornou ao palco, mas nervoso. Até que alguém começou a jogar bombinhas no palco, novamente para o show e chama os seguranças e ameaça ir embora. Por isso resolveu punir o público e deixou de tocar três músicas. Com cinquenta e oito minutos de show, saiu do palco e não voltou para o bis. O público, enfurecido, começou a quebrar tudo, atearam fogo em borrachas, pessoas feridas, outras presas e Renato não dormiu no hotel, preferiu ir para a casa da família. Péssima ideia, pois os fãs aglomeraram-se em frente ao prédio e ameaçaram o cantor. Foi necessário armar um esquema para que ele saísse sem ser visto e ir para o aeroporto em segurança. A Legião nunca mais voltou a tocar na cidade. Foram raras as vezes que Renato foi a Brasília novamente; ia somente para ver o filho, que estava com sua mãe.

Em 1993 resolveu se internar numa clínica para se livrar da dependência química, depois de muitas brigas com a banda após uma turnê no Nordeste. A agenda foi cancelada.

Nutria o sonho de lançar “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo” em filme. Eram histórias, não havia refrão, apenas rimas para dar sonoridade. Em 2013 foi lançado “Faroeste Caboclo” e, em março deste ano, “Eduardo e Mônica” também virou filme. Seu sonho foi realizado.

Em 11 de outubro de 1996 Renato Russo morre, aos 36 anos, de Aids, no Rio de janeiro. Deixou um legião de fãs, que continua a crescer com outras gerações. Suas músicas continuam atuais, sua visão de um mundo melhor, sua memória espetacular, com inúmeras histórias contadas em música, sua inteligência e sede por um país livre continuam a ser aclamadas. “Será que vamos conseguir vencer”? “Que país é esse”? Ainda esperamos por essas respostas Renato Russo.

Depoimento

“Em 22 de outubro de 1996, após a sua morte, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá voltam à EMI. Em entrevista coletiva comunicam que a Legião não existe mais. Dado lembra que os três tinham decidido que, caso algum deles deixasse a banda, o que fosse feito por qualquer um dos três não levaria o nome Legião Urbana. Conclui:

-Renato partiu, automaticamente, o grupo não existe mais. E não faria o menor sentido continuar a existir. Renato é insubstituível.”

Curiosidade

“O álbum Duetos, gravado por Renato e outros cantores teve uma faixa curiosa com Marisa Monte, “Celeste”. Ela aceitou a participar quando foi lançado em 2010, mas não queria entrar em estúdio sozinha, achou que ficaria estranho ele não estar. Lembrou que tinha uma fita no seu acervo pessoal, havia um registro da música em que cantava com Renato no intervalo de uma sessão de gravação de “The Stonewall”, em dezembro de 1993, e entregou a Carlos Trilha. Foi um trabalho difícil, mas é feito o dueto com as duas vozes, e Marisa Monte canta o verso que mais gostava junto com a voz de Renato. Quem ouve esta faixa no volume alto consegue ouvir que depois que acaba a música Renato diz:

-Acabou?”

Ao sair do crematório, em entrevista sua mãe relatou:

“Ele quis chegar ao fim. Ele não se suicidou, mas simplesmente não lutou. Ele quis chegar ao fim porque ele me disse: Mãe, o meu lugar não é aqui, quero ir embora, eu quero ir para um lugar melhor”

“Considero-me a voz da geração Coca-Cola, que são os filhos da revolução. Sou um filho perfeito da revolução, por isso minha poesia não reflete nada”

Renato Russo

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